20 de Outubro: Dia Mundial de Combate ao Bullying

O bullying é um problema grave que, felizmente, tem vindo a despertar mais interesse na população em geral. Mas em que consiste, exatamente? O bullying consiste num abuso de poder que se traduz numa agressão sistemática e intencional contra outro e pode tomar diversas formas: direto, como agredir verbal ou fisicamente e indireto, quando a vítima está ausente, que consiste por exemplo na difamação e discriminação do indivíduo. Para uma situação ser considerada bullying, não têm de ocorrer ambas as formas de agressão, sendo que a principal caracterização desta problemática se prende com o seu carácter repetitivo e com intenção de magoar o outro.

Um dos principais fatores que perpetuam este tipo de comportamentos, é a crença de alguns adultos de que estes podem ser comportamentos normais entre os jovens, vistos como “brincadeiras”… Pais e educadores, a constante humilhação de um jovem não pode ser considerada uma brincadeira, mesmo que a nós nos pareça que a ofensa não é grave. Este tipo de crença contribui para que a criança ou adolescente pense que a culpa é sua e que o que lhe está a acontecer é inevitável e que ninguém a pode ajudar… E é por isto que muitas vezes esta problemática é silenciosa. E por isso tão perigosa. Temos de pôr os pontos nos i’s: o bullying magoa. Magoa muito, faz feridas difíceis de sarar e pode matar. Entre as suas consequências encontram-se o abuso de substâncias, o surgimento de perturbações da ansiedade e claro, a depressão intimamente ligada ao suicídio.

Mas como posso eu saber se o meu filho é vítima de bullying? Como já referido, este é um problema que muitas vezes é vivido no silêncio. Os jovens podem ter medo de partilhar com um adulto aquilo que estão a viver, com medo das consequências para si. Crianças tímidas, fisicamente frágeis, que reagem às provocações, com baixa autoestima e reduzidas competências sociais, estão mais suscetíveis a ser vítimas. Devemos estar atento à resistência em ir à escola, isolamento, decréscimo do rendimento escolar, ataques de fúria e impulsividade e sintomas físicos como o cansaço, falta de apetite, indisposição e dificuldade acentuada em dormir.

E se eu desconfiar que o meu filho é agressor? Por norma, crianças com um perfil manipulador, com recusa recorrente das regras, violentas para com pessoas ou animais e com baixa tolerância à frustração, são mais suscetíveis a tornar-se agressoras. É de salientar, que muitas vezes se considera que o agressor não tem sofrimento associado, quando uma das maiores causas deste comportamento também é a sua falta de autoestima, que procura colmatar com sentimentos de poder e superioridade, que espera alcançar através dos comportamentos violentos.

Tanto a vítima como o agressor são crianças que precisam de ajuda. Se desconfiar que uma situação destas está a ser levada a cabo, aborde o assunto com naturalidade. Mostre ao seu filho que está disponível para conversar sobre o assunto sem julgamentos e quando quiser, sem pressioná-lo. Não lhe cobre por não ter contado mais cedo. Quando partilha consigo a sua experiência, oiça com atenção e mostre-se interessado. Sublinhe a sua coragem em partilhar, e agradeça. Seja empático e comente como deve ter sido difícil passar por uma situação tão dolorosa sozinho, no caso da vítima. Reforce que irão conseguir ultrapassar a situação juntos. Em relação à vítima, é importante não mentir e dizer que não contará a ninguém. Terá de tomar medidas junto da escola e neste momento, existe uma grande probabilidade do seu filho experienciar um elevado nível de stress. Tente assegurá-lo de que estará protegido. Descanse-o e diga-lhe que irá sempre agir com o seu conhecimento.

E como posso, enquanto pai, ajudar o meu filho a desenvolver competências que o permitam não ser uma vítima? É importante identificar que características fazem do seu filho uma vítima mais facilmente: trabalhe com ele a autoestima e a assertividade. No caso de um filho agressor, faça o mesmo, tente identificar que fatores podem estar a contribuir para estes comportamentos: falta de autoestima, padrões de comunicação desadaptativos em casa, falta de estabelecimento de empatia. Para ambos os casos, pode ser benéfico um acompanhamento especializado, pois existe sofrimento e défice de capacidades de comunicação.

E para si, mãe, pai, avô, avó, educador que lê… perdoe-se. É também difícil para os cuidadores perceberem que as suas crianças estão envolvidas neste tipo de situação. É por vezes angustiante saber que as agressões decorreram tanto tempo, mesmo diante de nós… em silêncio. Por vezes subestimamos a capacidade de as crianças guardarem um segredo. Por vezes, é a única forma que arranjam de se proteger. De nos proteger.

Débora Carvalhosa

Psicóloga Clínica