Filhos que antes de serem já eram... E sempre serão

Nunca imaginei que fosse tão comum! Que tantas pessoas que eu conheço tivessem também passado por isto sem eu saber de nada…” São palavras proferidas por uma grande amiga após uma situação de perda gestacional, enquanto eu a escutava e procurava confortar.

Não imaginava, porque não se fala. Nem se permite falar…. É desconfortável falar sobre uma gravidez que não culminou num nascimento porque expõe as nossas fragilidades e receios mais profundos. Esta é uma dor que tem dificuldade em ser escutada e compreendida.

O luto gestacional carece de validação social. Aos pais em luto, é-lhes negado esse direito. É pedido que engulam a sua dor, engulam as suas lágrimas, engulam as suas palavras… Num momento em que eles próprios sentem que estão a ser engolidos pela devastidão da vida. É-lhes pedido que façam o seu luto em privado e, preferencialmente, durante um breve período de tempo. Que prontamente se reergam e prossigam as suas vidas. Que ignorem os laços que já os uniam aquele filho e que foram abruptamente rompidos… Que ignorem tudo o que já haviam investido, idealizado, planeado, amado. Que ignorem tudo o que ficou por concretizar, tudo o que ficou por viver, tudo o que poderia ter sido mas que não chegou a ser.

A perda gestacional é um acontecimento potencialmente traumático, cujo impacto varia de indivíduo para indivíduo. Aceitar a perda implica um processo de luto, que se quer saudável e que muitas vezes carece de um espaço para falar de dor e de sofrimento. Os pais não perdem só um filho, perdem um projeto de vida futura, já sonhada e imaginada ao pormenor.

O luto demora tempo, o tempo de cada um. A experiência de sentimentos ambivalentes é comum e estes podem oscilar entre a raiva e a tristeza profunda, entre a negação e aceitação. Há inclusive períodos de dormência, onde não se sente nada… E está tudo bem em sentir e experienciar este turbilhão emocional. Este faz parte do processo, do caminho a percorrer. É preciso tempo e espaço para assimilar e aceitar esta nova e tão dura realidade.

Pai e mãe tendem a reagir de forma distinta face à perda. Enquanto a mãe tende a reagir intensa e emotivamente, com elevado sentimento de culpa e sensação de fracasso por não ter conseguido proteger devidamente o seu bebé, o pai tende a ser mais controlado e assumir inicialmente uma postura de apoio à companheira. Geralmente, só quando esta já se encontra reestabelecida é que este se “permite a sentir”.

A comunicação e o apoio mútuo entre o casal é fundamental até porque as vivências desta experiência terão eco nas gravidezes que poderão ainda estar por vir. É comum que uma gravidez posterior a uma perda seja vivida com mais ansiedade e receio.

Em tempos de maior isolamento e de menor contacto social, importa ainda mais destacar a solidão desta dor. Umas vezes imposta pela sociedade, que com ela não sabe lidar, outras escolhida pelos pais, face à incompreensão que sentem. É fundamental que seus sentimentos sejam acolhidos e respeitados. Que não se tentem calar com frases feitas de consolo que magoam ainda mais estes corações, já destroçados. A ajuda profissional constitui uma mais valia no processo de restabelecimento emocional oferecendo ferramentas para lidar com estas emoções, que têm todo o direito a ser vividas, ditas, sentidas, pensadas e elaboradas. A nossa sociedade não está ainda preparada e é urgente mudar este paradigma. Por todos nós, mas principalmente pela Isabel, pela Joana, pela Margarida, pela Maria, pelo António, e por todos aqueles que sofreram, ou estão a sofrer, uma perda desta magnitude.

Raquel Bastos Ferreira

Psicóloga Clínica